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Neste Outubro Rosa, lembre-se da importância da alimentação saudável para a prevenção do câncer de mama

Dr. Thomas Prates Ong, docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP; Pesquisador do Food Research Center

O câncer de mama é um dos principais problemas de Saúde Pública em mulheres no Brasil e no mundo. Assim, neste mês do Outubro Rosa, temos uma ótima oportunidade para conversar sobre a importância da alimentação saudável para a prevenção da doença. 

Quando falamos de câncer de mama, estamos nos referindo a uma série de doenças que têm em comum o fato de levar à proliferação descontrolada de células na glândula mamária, muitas vezes acompanhada de invasão de outros órgãos (metástase). Além disso, um mesmo tipo de câncer de mama pode se desenvolver em diferentes mulheres por meio de variadas trajetórias metabólicas, celulares e moleculares. Isso dependerá de fatores genéticos da mulher, bem como de suas exposições ambientais e estilo de vida. Embora as pesquisas no campo desta doença tenham avançado consideravelmente nas últimas décadas, não sabemos, ainda, as suas causas exatas, e preferimos falar de fatores que aumentam ou diminuem seu risco (Eccles et al., 2013).   

Em alguns casos (5-10%), o fator genético é o preponderante. Por exemplo, mulheres com mutações no gene BRCA1 apresentam maior chance de desenvolveram a doença. Entretanto, na grande maioria dos casos, o fator ambiental/estilo de vida é o mais importante. Em especial, podemos destacar o padrão de alimentação. Pesquisas mostram que diferentes componentes dos alimentos -macro/micronutrientes e compostos bioativos dos alimentos – podem impactar a saúde celular por meio da modulação de diferentes processos importantes para o desenvolvimento do câncer de mama. Tais ações são bastante complexas e motivo de investigação científica crescente (Wiseman, 2019).

Muito importante nesse contexto, é a manifestação do Instituto Nacional do Câncer (veja site do INCA indicado), que destaca: “Entre as medidas que contribuem para prevenir o câncer de mama estão a adoção de comportamentos protetores, como seguir uma alimentação saudável, praticar atividades físicas com regularidade, evitar bebidas alcoólicas e manter o peso adequado. Essas ações são capazes de evitar 28% de todos os casos da doença”. Vale a pena reforçar que essa porcentagem não é desconsiderável e número significativo de mulheres poderia se beneficiar adotando tais medidas.

Também, o ultimo relatório do Fundo Mundial de Pesquisa do Câncer (WCRF) e Instituto Americano de Pesquisa do Câncer (AICR), intitulado “Diet, Nutrition, physical activity and cancer: a global perspective” (https://www.wcrf.org/), reforça o papel da alimentação saudável para prevenção do câncer de forma geral, incluindo o de mama. Consideramos que as recomendações dessas instituições sejam as mais robustas no contexto da prevenção do câncer via alimentação. Elas incluem:

  1. Mantenha peso adequado.
  2. Mantenha-se fisicamente ativo.
  3. Consuma dieta rica em grãos integrais, vegetais, frutas e leguminosas.
  4. Limite o consumo de alimentos do tipo “fast-foods” e outros alimentos processados ricos em gorduras, amido e açucares simples.
  5. Limite o consumo de carne vermelha e processada.
  6. Limite o consumo de bebidas açucaradas.
  7. Limite o consumo de bebidas alcoólicas.
  8. Não utilize suplementos para a prevenção do câncer. 
  9. Para mães: amamentem seus bebês.
  10. Após o diagnóstico do câncer: siga estas recomendações, se puder.

Além disso, o WRCF/AICR recomendam não fumar e evitar exposição excessiva ao sol para a prevenção do cancer. Um outro site bastante útil, que aborda a saúde da glândula mamária e a prevenção do câncer de mama, é o da Universidade da Califórnia em São Francisco (E.U.A) (https://www.ucsfhealth.org/education/basic-facts-about-breast-health-nutrition-for-breast-cancer-prevention). Nele são tratadas questões específicas ao câncer de mama, incluindo aspectos nutricionais e de modificação do estilo de vida.   

Uma outra informação importante é a de que o câncer de mama leva décadas para se desenvolver. Isso indica que sempre é tempo de começar a se cuidar adotando medidas preventivas. Além disso, pesquisas experimentais incluindo de nosso grupo têm mostrado que a alimentação da mãe durante a gestação e lactação pode afetar o desenvolvimento da glândula mamária no feto/neonato, influenciando seu risco para a doença na idade adulta (de Oliveira Andrade et al., 2014; Santana et al., 2019). De forma bastante interessante, nossos estudos foram os primeiros a mostrar que a má alimentação do futuro pai pode alterar padrões epigenéticas nos espermatozóides e, com isso, aumentar o risco de câncer de mama nas filhas, em modelo em roedores (Fontelles et al., 2016; Guido t al., 2016). Caso esses achados se confirmem em seres humanos, poderemos ter no futuro novas estratégias de prevenção do câncer de mama que já focariam no início da vida da mulher. Enquanto essas pesquisas avançam, o mais prudente é que tanto mais mães como pais busquem ter uma alimentação saúdável tanto na fase de pré-concepção, como de gestação e lactação (no caso das mulheres). 

Finalizamos com a mensagem de que o cancer de mama é uma doença que pode ser prevenida. Assim, neste Outubro Rosa, aproveite para lembrar a importância da boa alimentação para se prevenir. Dissemine a informação para familiares, amigos e colegas. Comece já!

 

Referências

Eccles SA, Aboagye EO, Ali S, Anderson AS, Armes J, Berditchevski F, Blaydes JP, Brennan K, Brown NJ, Bryant HE, Bundred NJ, Burchell JM, Campbell AM, Carroll JS, Clarke RB, Coles CE, Cook GJ, Cox A, Curtin NJ, Dekker LV, Silva Idos S, Duffy SW, Easton DF, Eccles DM, Edwards DR, Edwards J, Evans D, Fenlon DF, Flanagan JM, Foster C, Gallagher WM, Garcia-Closas M, Gee JM, Gescher AJ, Goh V, Groves AM, Harvey AJ, Harvie M, Hennessy BT, Hiscox S, Holen I, Howell SJ, Howell A, Hubbard G, Hulbert-Williams N, Hunter MS, Jasani B, Jones LJ, Key TJ, Kirwan CC, Kong A, Kunkler IH, Langdon SP, Leach MO, Mann DJ, Marshall JF, Martin L, Martin SG, Macdougall JE, Miles DW, Miller WR, Morris JR, Moss SM, Mullan P, Natrajan R, O’Connor JP, O’Connor R, Palmieri C, Pharoah PD, Rakha EA, Reed E, Robinson SP, Sahai E, Saxton JM, Schmid P, Smalley MJ, Speirs V, Stein R, Stingl J, Streuli CH, Tutt AN, Velikova G, Walker RA, Watson CJ, Williams KJ, Young LS, Thompson AM. Critical research gaps and translational priorities for the successful prevention and treatment of breast cancer. Breast Cancer Res. 2013 Oct 1;15(5):R92. doi: 10.1186/bcr3493.

https://www.inca.gov.br/noticias/divulgacao-de-estrategias-de-prevencao-ao-cancer-de-mama-marcam-outubro-rosa-no-inca acesso em 10/10/2020

https://www.ucsfhealth.org/education/basic-facts-about-breast-health-nutrition-for-breast-cancer-prevention acesso em 10/10/2020

https://www.wcrf.org/dietandcancer/cancer-prevention-recommendations

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Fontelles CC, Guido LN, Rosim MP, Andrade Fde O, Jin L, Inchauspe J, Pires VC, de Castro IA, Hilakivi-Clarke L, de Assis S, Ong TP. Paternal programming of breast cancer risk in daughters in a rat model: opposing effects of animal- and plant-based high-fat diets. Breast Cancer Res. 2016 Jul 26;18(1):71. doi: 10.1186/s13058-016-0729-x. 

Guido LN, Fontelles CC, Rosim MP, Pires VC, Cozzolino SM, Castro IA, Bolaños-Jiménez F, Barbisan LF, Ong TP. Paternal selenium deficiency but not supplementation during preconception alters mammary gland development and 7,12-dimethylbenz[a]anthracene-induced mammary carcinogenesis in female rat offspring. Int J Cancer. 2016 Oct 15;139(8):1873-82. doi: 10.1002/ijc.30223. 

Wiseman MJ. Nutrition and cancer: prevention and survival. Br J Nutr. 2019 Sep 14;122(5):481-487. doi: 10.1017/S0007114518002222.