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Desenvolvimento Sustentável, Ciência e Sociedade

Prof. Dr. Franco M. Lajolo

I DESAFIOS DO FUTURO: UM DIAGNÓSTICO

Enfrentamos hoje desafios globais, complexos e urgentes.

Face a eles, são necessárias transformações profundas em nosso modo de vida que promovam um desenvolvimento sustentável, tal como expresso nos “Objetivos do Desenvolvimento Sustentável“ da Organização das Nações Unidas (ONU), que propõe o ano de 2030 para consecução de tais objetivos, com os quais o ILSI está alinhado.

Para o diagnóstico e a busca de soluções será necessária a mobilização da ciência e sua interação estreita com formuladores de políticas públicas, empresas e sociedade que precisam engajar-se em todas as dimensões no projeto.

Ficou evidente, ao longo da pandemia que ainda nos espreita, o impacto da pesquisa, do conhecimento cientifico existente e do que vem sendo gerado, na busca da compreensão do que nos desafiava.

O Brasil conseguiu atender à emergência. Em poucos meses, nossos institutos, universidades, empresas, mídia, grupos de pesquisa, sociedade em geral, se mobilizaram num grande esforço de integração transdisciplinar, interinstitucional – dentro do País e com o exterior – produzindo, trocando dados e complementando projetos.

Resumindo, por ocasião da pandemia, a ciência trabalhou procurando respostas que pudessem prevenir infecções e salvar vidas no curto prazo, ganhando muita atenção da mídia e visibilidade junto à sociedade.

 

II DESAFIOS FACE À ALIMENTAÇÃO

No contexto dos problemas que nos desafiam – em função dos quais organismos internacionais estabelecem metas – vale observar que dois terços desses objetivos – tanto os imediatos quanto os de mais a longo prazo – estão ligados aos alimentos e nutrição.

Responder aos desafios e alcançar as metas desejáveis exige mudanças nos sistemas alimentares. Precisamos comprometermo-nos com o uso racional do solo, o respeito à biodiversidade, respostas à escassez de água, à preservação ambiental, e – sobretudo – garantia de alimentação suficiente, de qualidade e acessível, para os bilhões de habitantes do planeta. Enfim, em construir uma sociedade resiliente.

Desinformação ou informações equivocadas relativas a hábitos alimentares e nutrição geram problemas graves de saúde, pela deficiência ou pelo excesso de nutrientes e dúvidas quanto á qualidade e segurança dos alimentos que ingerimos. Populações urbanas e rurais, com reduzida informação científica, vivem imersas numa sociedade pautada pela tecnologia, onde informações circulam em velocidade vertiginosa.

Submetida à complexidade da vida contemporânea, e com limitada formação científica a sociedade é vítima da pseudociência, divulgada por ”fake news“.

São assustadoras as consequências das informações falsas, erradas.  As fake news, a pseudociência – gerando desinformação – ameaçam a saúde, consomem tempo e energia para serem desmentidas, desacreditam a ciência, confundem e desorganizam a sociedade e podem ter enormes impactos econômicos.

Veiculadas principalmente pelas mídias sociais, nas quais reverberam interesses diversos, as notícias falsas –sobretudo sobre saúde e alimentação – além de comprometer a saúde de quem acredita nelas, desinformam e podem desacreditar a ciência. E, mais que isso, podem desestimular novas pesquisas que fariam avançar o conhecimento científico. Este sim, capaz de propor soluções para problemas ambientais e de saúde.

 

III A CIÊNCIA E SEU PAPEL

Como mostra a história, a ciência é um poderoso instrumento de criação de conhecimento.  Este conhecimento ajuda a entender o mundo em que vivemos, a entendermos a nós mesmos, e contribui para desenvolver uma sociedade mais justa e democrática.

Respostas à necessidade de produzir alimentos para os mais de sete bilhões de pessoas no mundo, as tecnologias para garantir sua conservação, distribuição e segurança mostram a importância da Ciência para um mundo melhor.

A contribuição da Ciência, no campo da alimentação humana, soma-se à sua contribuição para uma melhor compreensão das doenças e, consequentemente, para a redução delas. Tais benefícios só foram possíveis pelo conhecimento sem precedentes dos mecanismos celulares, moleculares e genéticos, o que levou à criação de medicamentos e alimentos que contribuíram ao longo da história, para expressivo e bem vindo aumento na expectativa e na qualidade de vida.

Tanto ciências básicas quanto as aplicadas são necessárias: debruçam-se sobre problemas já identificados e lançam bases para solução de problemas que talvez ainda não saibamos quais serão.

As vacinas, hoje universalmente conhecidas e utilizadas, que protegem da poliomielite, do tétano, da coqueluche, do sarampo e de muitas outras doenças são um excelente exemplo da importância de descobertas cientificas.

Nas atividades de pesquisa, especialmente as desenvolvidas na universidade, geram-se, ao lado de soluções para problemas, os recursos humanos que precisam estar disponíveis para desenvolver e avançar os projetos de pesquisa que são o motor da ciência. A construção desse sistema de pesquisa, ciência e tecnologia leva muito tempo e requer recursos de forma continua e adequada, ao lado de políticas estáveis, o que – infelizmente- não tem sido uma constante no Brasil.

Surgem hoje, são relevantes e merecem apoio iniciativas como a “Open Science’ da UNESCO[1] que promove acesso aberto ao conhecimento científico com o objetivo de compartilha-lo mundialmente em benefício da ciência e da sociedade. Universidades como a USP participam desse movimento mundial, através de diversas iniciativas[2]·.

É importante que a sociedade esteja consciente desse papel da ciência, rejeite políticas que ameacem seu desenvolvimento, apoiando e mesmo exigindo financiamento público – adequado e regular – para a pesquisa científica.

 

IV CIÊNCIA E PSEUDOCIÊNCIA NO ÂMBITO DA COMUNICAÇÃO

Para que a ciência cumpra esta sua vocação, educação e divulgação científica são fundamentais. Não se trata apenas de reforçar o necessário ensino das ciências, já presente nos currículos escolares. O mundo atual requer, dos cientistas, esforço grande de comunicação.

Divulgação de informação séria e compreensível – compreensível para além do restrito círculo dos pares – precisa fazer parte das funções dos pesquisadores e das instituições de pesquisa.

É neste contexto que a ciência pode (e precisa) fazer parte significativa da bagagem cultural do cidadão, constituindo-se em instrumento essencial na construção de sua identidade e patrocinando a inserção na vida social e econômica que lhe exige o mundo de hoje.

Falsas notícias sobre alimentação e saúde, baseadas em opiniões leigas, e não em fatos – e em interesses nem sempre legítimos – são extremamente prejudiciais. Dificultam e retardam a implementação de melhores politicas públicas de saúde e de meio ambiente, e de novas tecnologias, fazem retroceder avanços já conseguidos, como se vê atualmente em movimentos contrários à vacinação e ao uso da biotecnologia em diversos países. Afetam as decisões e práticas das pessoas atingindo as mais diversas camadas sociais.

É o negacionismo científico.

A pseudociência espalha-se na velocidade da luz, pelas mídias sociais. Usa técnicas para atrair e manipular a atenção das pessoas, convencendo e desinformando, favorecendo a formação de grupos que reforçam interpretações erradas, não poucas vezes recorrendo à violência e a ameaças para fazer valer suas opiniões.

As plataformas sociais têm a oportunidade e responsabilidade de contrapor-se a isso. Ao lado de sua regulamentação (o que já se aventa em alguns países), é preciso usar e comprometer as mesmas mídias sociais para difundir informações corretas, propiciando a seus usuários notícias baseadas na ciência.

Um artigo em uma revista cientifica e um artigo disponível na internet ou em revistas leigas de bancas de jornal, tem diferentes pressupostos. Matérias baseadas em opinião, frequentemente limitam-se a resumos do artigo original para criar impacto e não em fatos, e não são evidências científicas confiáveis.

A ciência vive em evolução constante, às vezes percorrendo caminhos contraditórios, o que às vezes causa perplexidades, mas é à medida que se descobrem novos fatos – por exemplo, sobre dietas alimentares, nutrição e saúde- e que se percorrem os diversos caminhos de validação e reconhecimento pela comunidade científica, que se tornam possíveis melhores orientações para a alimentação humana.

É preciso, assim, que conhecimentos construídos com base no método científico fundamentem políticas públicas – ao lado, é claro, de outros fatores, como por exemplo, os econômicos e os sociais. Esta perspectiva reserva papel fundamental para a assessoria científica a jornalistas, a gestores públicos, e para presença maciça de instituições universitárias na mídia impressa e digital.

 

V RESPONDENDO AOS DESAFIOS

Aumentar o acesso à informação de alta credibilidade nas mídias sociais é assunto complexo, depende de fatores sociais e políticos, mas é urgente e essencial, especialmente diante do enorme volume de informação das mais variadas origens na qual estamos imersos.

As estratégias de comunicação com o grande público precisam ser mais pesquisadas. Precisam envolver o público jovem, os alunos do ensino médio, da graduação e pós-graduação das universidades que já vem atuando nas mídias sociais com elevada motivação.

Algumas iniciativas já em curso [3] favorecem a discussão de critérios para avaliação da credibilidade de notícias ou para a identificação de sites com credibilidade e formação e assistência a profissionais da comunicação. São iniciativas louváveis, que podem ser replicadas por todas as instâncias que acreditam – como o ILSI acredita- na importância da ciência para manutenção e qualificação da vida humana.

[1] (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura

[2]  Tais iniciativas podem ser acessadas no seu portal – (http://ciênciaaberta.usp.br)(Declaração de apoio à Ciência aberta na USP 2021)

[3]  Comitê da NAS.  Relação de sites confiáveis pelo NHI, IFIC, ILSI ;https://www.nih.gov   (  NIH ) ; https://ific.org

( IFIC) https://ilsi.org  (ILSI ) ;http://ciênciaberta.usp.brhttp://en.unesco.org/news/draft-recommendation-open-sciencce-its-ways-final-adoption  Revista fapesp2021(309)18-13 e 24-27. DORA