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Microbiologista e Pesquisadora Colaboradora no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e Presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak esclarece dúvidas sobre a cloroquina e a hidroxicloroquina e seu uso na cura da Covid-19.

Confira:

ILSI Brasil: Afinal, o que é a cloroquina de que tanto se fala? Para que ela serve?

Natália Pasternak: A cloroquina e a hidroxicloroquina (um derivado menos tóxico da cloroquina), são medicamentos usados no combate à malária, além de doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide. Ela serve para o controle destas doenças.

 

IB: Qual o efeito delas no tratamento da Covid-19?

NP: Nenhum observado até agora, apesar de ainda haver estudos. Ambas já foram testadas no passado como antivirais para outras doenças. Por funcionar bem contra vários vírus “ïn vitro”, ou seja, em cultura de células na bancada do laboratório, resolveu-se testar se funcionaria “in vivo”, em animais e humanos. Até o momento, não deu certo. O fármaco falhou em animais e humanos para doenças como dengue, zika, chikungunya, ebola, influenza e para o próprio SARS. Para ebola e chikungunya, inclusive, piorou a doença, pois aumentou a carga viral e sintomas nos animais. Para a Covid-19, a melhor evidência que temos até agora é similar. Há indícios em estudos anteriores de risco cardíaco, principalmente em associação com azitromicina.

 

IB: Quais mitos rondam o uso da cloroquina? E o que é verdade?

NP: Os mitos dizem que cura Covid-19, principalmente se for dada no início dos sintomas. Não existe, até o momento, nenhum trabalho publicado em revistas médicas oficiais que corrobora isso. O mito é baseado em relatos pessoais e na impressão de um médico, e teve sua origem em um trabalho francês, criticado até pelo próprio periódico onde foi publicado.

Depois desse, seguiram vários outros trabalhos, sem grupos de controle, que não dizem nada do ponto de vista científico, mas que alimentam o mito. Por outro lado, trabalhos bem conduzidos, publicados nas melhores revistas médicas internacionais, demonstraram que não existe benefício, mas existe risco cardíaco, que não deve ser negligenciado.

 

IB: Sobre a nitazoxanida, estão sendo realizados testes para seu uso no combate à Covid-19. O que esta substância tem de diferente que levou aos testes? Qual seu uso antes pandemia?

NP: A nitazoxanida é um vermífugo. Foi também observado um possível efeito antiviral “in vitro”, e por isso está sendo investigada. Não há ainda nenhum resultado, nem parcial, que leve a acreditar que será efetivo em animais e humanos. É preciso esperar estes resultados.

 

IB: A Covid-19 tem cura decorrente do uso de medicamentos?

NP: Não existe medicamento específico para Covid-19, o que não quer dizer que não exista tratamento. Pessoas que precisam de hospitalização estão sendo tratadas e recuperadas. Recebem medicamentos de suporte, oxigênio e ventilação mecânica, quando necessário. Estamos demasiado acostumados a pensar que tudo precisa de uma pílula ou injeção. Não é verdade. Temos um sistema imune atuante e temos tratamentos de suporte.

 

IB: Sabemos que a previsão de uma vacina é de pelo menos um ano daqui para frente. Até lá, quais suas recomendações para que a população se mantenha segura e longe de contaminação?

NP: Vacinas irão chegar, não apenas uma, mas várias. Vamos precisar de todas elas. Não necessariamente as primeiras serão as melhores, e é importante continuar pesquisando. Até lá, temos que seguir achatando a curva, com medidas de prevenção e distanciamento social.

 

Sobre Natália Pasternak

Natália é bióloga e PhD com pós-doutorado em Microbiologia, na área de Genética Molecular de Bactérias pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP).  Foi diretora no Brasil do Festival Internacional de Divulgação Científica Pint of Science – Um Brinde à Ciência, coordenando palestras em 85 cidades. É colunista do jornal O Globo, das revistas The Skeptic UK e Veja Saúde, além de autora do livro Ciência no Cotidiano, da editora Contexto.  Atualmente é pesquisadora colaboradora do ICB-USP, no Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas (LDV), membro da Science Teaching Fellows Alumni Community da American Society for Microbiology e publisher da revista Questão de Ciência, além de Diretora-Presidente do Instituto Questão de Ciência.